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Transformar sonhos em realidade

23/03/2016

Luciano Huck, que comanda há mais de 10 anos o Caldeirão do Huck, é um verdadeiro fenômeno de audiência das tardes de sábado da Rede Globo. O apresentador que faz muita gente se emocionar assistindo a quadros como o "Lata Velha" e o "Lar Doce Lar", é um grande exemplo de empreendedor da comunicação no País. Luciano já passou por diversas áreas, da TV, do jornal e do rádio, entre outras, e hoje conta para a gente um pouco dessa trajetória. Luciano diz que prefere não pensar no passado e nos seus erros, mas sim olhar sempre para o futuro. E é um pouco desse futuro que nós vamos conhecer.

Fazendo a Diferença - Seu pai é jurista e sua mãe é urbanista. O que despertou o seu desejo de ingressar no mundo da comunicação? Foi incentivado por alguém? De que forma?

Luciano Huck - Eu nunca sonhei em fazer o que eu faço, mas fui descobrindo a minha vocação e a minha missão nesta vida aos poucos. Ou seja, sempre tentei entregar mais do que as pessoas esperavam de mim nas oportunidades que tive. Acho que trabalhei muito e tenho prazer naquilo que faço. Descobri a comunicação em casa, muito pequeno, pois o marido da minha mãe na época era editor de algumas revistas da Abril. Eu conheci o universo de comunicações através da mídia impressa das revistas. Depois tudo foi acontecendo sem querer. Eu gosto de fazer as pessoas se divertirem e, ao longo dos anos, só fui aumentando o número de gente que eu atingia.

Fazendo a Diferença - Desde cedo você demonstrou ter um espírito empreendedor muito forte. O que significa ser um empreendedor, em sua opinião, e quais as qualidades necessárias para alguém se tornar um empreendedor?

Luciano Huck - "Empreender" é uma palavra muito difícil, muito abrangente e muito ruim de rimar com qualquer coisa. Mas o significado dela é importante. Acho que, ao tentar traduzir, eu diria que é o prazer de você ter ideias e fazê-las virarem realidade. E é por isso eu gosto da televisão, ela é uma boa válvula de escape. Por exemplo, pensando em eletrodomésticos, se você tem uma geladeira em casa, você enche com comida, se você tem uma máquina de lavar roupas, você enche com roupa suja e a televisão você enche com ideias. Ao mesmo tempo, para o empreendedor que não quer trabalhar com televisão, você também tem muitas ideias, o que nem sempre é bom, por que você pode acabar se perdendo nelas. Penso que o bom empreendedor é aquele que consegue ter uma ou várias ideias e separar a que mais lhe daria prazer em ver realizada, entendendo qual é a que será mais bem aceita e a que dará certo.

Fazendo a Diferença - E qual as principais dificuldades enfrentadas durante a sua carreira?

Luciano Huck - Eu acho que não tive muitas dificuldades. Eu estou sempre olhando muito para frente, e não para trás. Quem vive de passado é professor de história. Nestes 20 anos, trabalhando com televisão, jornal, revista, entre outros, percebo que você tem que ter foco. Nas fases da vida nas quais eu estava fazendo muitas coisas diferentes, acabei perdendo qualidade. Por isso você tem que focar naquilo que te dá mais prazer e naquilo que te renumera melhor quando se trata de trabalho.

Fazendo a Diferença - E o gasto de energia também é maior, não é mesmo?

Luciano Huck - Sim. Acho que para que qualquer empreendedor possa produzir bem, você deve se preocupar com a sua qualidade de vida. Não adianta você ser a pessoa estressada, que está trabalhando muito por que "está na moda". É o contrario, você deve ser o mais bem resolvido e calmo possível para conseguir fazer as coisas andarem bem.

Fazendo a Diferença - Em sua carreira você demonstra uma preocupação grande em se comunicar com os jovens. Como você vê a juventude no Brasil de hoje?

Luciano Huck - Acho que não é somente com os jovens, eu me preocupo com qualquer um. Quando você faz televisão aberta, ainda mais na Rede Globo, nos sábados à tarde, se quiser se comunicar com um público só, não vai dar certo. Você tem que ser o mais abrangente possível. Eu faço a televisão que eu acredito, para as pessoas que se interessarem pelo modo que eu estou mostrando o mundo e que eu vejo o mundo. O jovem no Brasil hoje está nascendo em uma época muito boa, na qual o mundo está se transformando. Globalmente, você tem entre as dez profissões mais requisitadas, seis que provavelmente não existiam 20 anos atrás. Hoje, quando você chega ao 5º ano da faculdade, o que você aprendeu no 1º, em muitos casos, já é obsoleto. No Brasil, especificamente, você começa a ter sinais reais de mobilidade social, ou seja, por exemplo, acabei de receber um e-mail de um menino de 18 anos cujo pai é eletricista. Ele se dedicou muito ao estudo no sistema público de ensino que ele teve acesso e foi aceito com bolsa de 90% em três faculdades americanas. A juventude brasileira vai ter muito mais oportunidades do que teve no ultimo século.

Fazendo a Diferença - E o que fazer para preparar os jovens para assumirem o protagonismo futuro?

Luciano Huck - Eu penso que é através da educação. Ter boas escolas e boas faculdades é o único jeito de se preparar uma geração inteira para o mercado de trabalho.

Fazendo a Diferença - Hoje, você é um cidadão do mundo... Em sua opinião, a chamada "globalização" facilita ou é um fator complicador na trajetória do empreendedor? Como equilibrar o local e o global num mundo em constante mudança e evolução?

Luciano Huck - O mundo globalizado tem uma grande vantagem para o empreendedor, que é a troca de informações e de referências, ou seja, para quem gosta de empreender, ter referências e ter o histórico do que deu certo e do que não deu certo baliza os seus movimentos futuros. A globalização só ajuda o empreendedor por que se tem muito mais acesso a crédito e a dinheiro, o que era muito mais difícil há alguns anos. Atualmente, o crédito, os fundos, as startups são muito mais democráticas que eram no passado e, com um bom projeto e um bom currículo, você consegue financiamento. O mundo globalizado facilita as ideias, facilita a troca de experiência e facilita os recursos.

Fazendo a Diferença - Quais os principais avanços tecnológicos que moldaram a sociedade contemporânea? E como você enxerga a tecnologia hoje, seus avanços, seus riscos, suas benesses, suas vantagens e desvantagens? Como a tecnologia pode contribuir com os objetivos de um País empreendedor?

Luciano Huck - Eu acho que se tivesse que resumir em uma linha, penso que seria o poder de atuar em rede, em todos os sentidos, ou seja, você consegue trazer recursos humanos e financeiros, pesquisar, recrutar ideias, fazer gestão e trocar experiências. O mundo, com tecnologia fica muito mais fácil para o empreendedor. A tecnologia só veio ajudar a desenvolver as economias, mas penso que ela tem que ser usada com parcimônia.

Fazendo a Diferença - Sabemos que toda trajetória inclui erros e acertos, glórias e fracassos, e que dos fracassos e das instabilidades podemos apreender lições que valem por muitos e muitos anos de experiência. Você se recorda de alguma grande dificuldade ou "tropeço", e as lições aprendidas, que poderia compartilhar conosco?

Luciano Huck - A televisão ela é cíclica, ou seja, algo que está dando certo hoje pode não dar certo daqui a um, dois ou dez anos. Por isso você tem que estar sempre preparado para se reinventar e isso vale para qualquer outro negócio. Você deve estar preparado para altos e baixos. Eu tenho a tendência a descartar os erros, esquecer os fracassos e pensar nas coisas que deram certo. Então, tenho um pouco de dificuldade de ficar pensando no que não deu certo, eu prefiro saber o que deu certo e tentar repetir isso no futuro.

Fazendo a Diferença - No seu entender, que mudanças precisam acontecer na educação brasileira? E como ela poderia ajudar na tarefa de formar cidadãos, com valores, responsabilidade e ética?

Luciano Huck - Eu acho que a educação brasileira já está melhorando. Se você parar para pensar, na década de 60 não havia tanta oportunidade. Hoje você tem escolas públicas em quase todas as favelas, comunidades e bairros do Brasil. A escola já se transformou nestes últimos 50 anos de maneira importante e se democratizou. Já está em todos os lugares, já é acessível a quase toda população, mas precisa ter um salto, não mais quantitativo, mas sim qualitativo, pois melhorando a qualidade da escola você melhora uma geração inteira.

Fazendo a Diferença - Um tema bastante presente no mundo de hoje e que está sendo debatido por empresários, pela mídia e pela sociedade é a preservação do meio ambiente, a busca de um equilíbrio entre o ambiental, o social e o econômico. Como você vê e percebe esta questão na sua vida pessoal, nos seus negócios e na sua vida pública?

Luciano Huck - Eu acho que o bom senso é fundamental em qualquer coisa que você faça na sua vida, regendo o equilíbrio entre a força de trabalho, respeito à natureza e qualidade de vida. Sendo assim, se você trabalha mais do que você pode, estraga a sua família e estraga a sua saúde e se você degrada demais a natureza, você cria um saldo negativo na sua passagem pelo planeta Terra. Você deve exercitar o bom senso e o equilíbrio.

Fazendo a Diferença - O empreendedorismo social forma líderes que atuam junto a comunidades, dando oportunidades a crianças, jovens e suas famílias. Você se considera um empreendedor social? Por quê?

Luciano Huck - Não, acho que tenho uma preocupação social. Eu presido uma ONG, em São Paulo, que faz um trabalho importante. A gente atua há dez anos e temos 1.600 jovens formados. Eu sou um entusiasta social. Empreendedor social é o Yunus (Muhammad Yunus, economista, vencedor de um Nobel da Paz e autor do Livro "O Banqueiro dos Pobres") e outras tantas pessoas que hoje em dia não tem mais vergonha de chegar em um hotel e, quando perguntam a profissão, escrevem "sou empreendedor social". Acho que isso hoje é uma missão, uma profissão que tem gente que faz muito bem. Os empreendedores sociais são fundamentais para multiplicar o impacto de ações pontuais que estão acontecendo em algum lugar do mundo, podendo transformar essas ações em políticas públicas. Os empreendedores sociais são profissionais importantíssimos na cadeia do terceiro setor. Eu sou um entusiasta social e ajudo como eu posso.

Fazendo a Diferença - Percebe-se, no seu perfil, um profissional que faz refletir nos diferentes segmentos da sociedade, tanto econômico, quando político e social. Você acredita que é possível contribuir na educação dos jovens, ainda na escola, para que estejam atentos às suas responsabilidade na construção do futuro do País? Como?

Luciano Huck - Isso faz parte de qualquer formação. A educação passa por isso, passa por valores, passa por você cuidar não só da sua árvore, mas sim da floresta toda. Educação é isso, é você conseguir enraizar valores positivos nas crianças.

Fazendo a Diferença - Como você enxerga o Brasil no futuro?

Luciano Huck - Acho que estamos em um caminho bom. Temos um País democrático, com opções políticas, principalmente nos cargos majoritários. Mas nos cargos menores e no Legislativo, nós temos muito a melhorar ainda. Concordando ou não do ponto de vista, a maioria das pessoas nos cargos majoritários são pessoas com bons históricos e com uma capacidade pública respeitável. Penso que, se cada um contribuir um pouco, se os políticos ajudarem, se a economia crescer, o futuro do Brasil será o de um País diferente do que foi quando eu era criança, será melhor.

Fazendo a Diferença - E para os seus filhos, qual seria a mensagem que você deixaria para eles, no futuro?

Luciano Huck - Eu diria para que exercitem o bom senso, de maneira constante.

Confira a entrevista com o Luciano Huck e outras matérias sobre a Junior Achievement na nova edição da Revista Fazendo a Diferença: http://issuu.com/jabrasil/docs/revista_jabrasil